Linguagem × Língua × Fala

 

LINGUAGEM

A LINGUAGEM é definida como a capacidade humana universal de produzir, interpretar e transmitir sentidos por meio de sistemas de signos. Trata-se da faculdade que permite aos indivíduos representar simbolicamente suas experiências, sentimentos, pensamentos e conhecimentos, viabilizando a comunicação e a interação social.

Nas fontes do seu caderno, o conceito é abordado sob diferentes perspectivas teóricas da Linguística:

1. A Visão Estruturalista (Ferdinand de Saussure)

Para Saussure, a linguagem em seu todo é "multiforme e heteróclita". Isso significa que ela abrange múltiplos domínios simultaneamente:

●     É física (envolve a propagação de ondas sonoras no ar);

●     É fisiológica (envolve os órgãos da fala e da audição);

●     É psíquica (envolve a associação mental entre conceitos e imagens acústicas);

●     Pertence tanto ao domínio individual quanto ao social.

Por reunir tantos aspectos e não possuir uma unidade homogênea, Saussure afirma que a linguagem em si não pode servir diretamente de objeto único de estudo da ciência linguística. Por essa razão, ele realiza o famoso recorte metodológico dentro da linguagem, dividindo-a em duas instâncias interdependentes:

●     Língua (langue): A parte social, homogênea, essencial e abstrata da linguagem; um sistema de signos e convenções adotado pela comunidade e registrado na mente dos falantes.

●     Fala (parole): O ato individual de vontade e inteligência em que o falante utiliza o sistema da língua para emitir seus enunciados concretos.

2. Tipos de Linguagem: Verbal vs. Não Verbal

A linguagem se manifesta em diferentes modalidades:

●     Linguagem Verbal: Utiliza a palavra (o signo linguístico) como elemento base de representação, podendo ser realizada de forma oral, escrita ou gestual-visual (como a Libras).

●     Linguagem Não Verbal: Utiliza outros tipos de signos não linguísticos para criar significado, tais como cores, imagens, sons musicais, gestos corporais, pintura, arquitetura e símbolos visuais.

●     Linguagem Mista ou Híbrida: Combina elementos verbais e não verbais no mesmo enunciado (como em histórias em quadrinhos, cartazes publicitários e postagens digitais).

 

3. Outras Abordagens Teóricas

●     Perspectiva Gerativa (Noam Chomsky): A linguagem é entendida como uma Faculdade da Linguagem de base biológica e inata, integrante da dotação genética de todo indivíduo saudável da espécie humana (a Gramática Universal).

●     Perspectiva Interacionista e Discursiva (Bakhtin e a Linguística Textual): A linguagem não é um simples código estático ou mero instrumento neutro de transmissão de mensagens; é uma prática social, histórica e dialógica constituída no diálogo entre sujeitos em situações concretas de interlocução.

LÍNGUA

A língua (langue) é conceituada nas fontes primariamente a partir da fundação da Linguística moderna por Ferdinand de Saussure, além de receber releituras de correntes teóricas posteriores, como o gerativismo e o sociointeracionismo.

1. A Definição Saussuriana (O Objeto da Linguística)

Para Saussure, a linguagem humana em seu todo é "multiforme e heteróclita", pois reúne aspectos físicos (sons), fisiológicos (fonação) e psíquicos (conceitos), pertencendo tanto ao domínio individual quanto ao social. Por ser heteróclita, a linguagem não servia diretamente de objeto unificado para uma ciência autônoma.

Saussure realiza então um recorte epistemológico na linguagem e isola a língua:

●     Sistema de Signos e Regras: É o código comum (regras fonológicas, morfossintáticas e semânticas) que determina como os sons e os sentidos se combinam para possibilitar a comunicação.

●     Produto e Instituição Social: É a parte social, abstrata e homogênea da linguagem, exterior ao indivíduo. O falante não pode criá-la ou modificá-la sozinho; trata-se de uma convenção ou contrato coletivo assimilado passivamente pela comunidade. Saussure a descreve como um "tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade".

2. Princípios Estruturais do Sistema da Língua

Saussure estabelece características fundamentais sobre como a língua se organiza internamente:

●     Forma, não Substância: A língua não é uma "nomenclatura" (uma simples lista de nomes/etiquetas coladas em coisas preexistentes do mundo). Ela é um princípio de classificação que organiza a própria percepção e interpretação da realidade.

●     Sistema de Valores e Diferenças: Na língua "só existem diferenças, sem termos positivos". Cada signo vale pelo que os outros signos não são no interior do sistema (como a oposição de cores, gêneros ou tempos verbais).

●     A Metáfora do Jogo de Xadrez: A língua é comparada a um jogo de xadrez: o que importa não é o material ou formato de que as peças são feitas, mas a posição e o valor de cada peça dentro da rede de regras do jogo.

●     Interdependência com a Fala (parole): Embora a língua seja o sistema social/estável e a fala seja a execução individual/momentânea, elas se implicam mutuamente: a língua é necessária para que a fala seja compreendida, e a fala é necessária para que a língua se estabeleça e evolua.

3. Ampliações e Outras Concepções Teóricas

As fontes registram como o conceito de língua evoluiu em outras escolas da Linguística:

●     Gerativismo (Noam Chomsky): Redefine o sistema não mais como uma instituição social, mas como uma competência mental, individual, inata e biológica presente no cérebro de todo indivíduo da espécie humana.

●     Teoria da Norma (Eugenio Coseriu): Propõe a norma como uma instância intermediária entre a abstração do sistema (língua) e a concretude da realização (fala), abrangendo as realizações habituais e normais de uma comunidade.

●     Sociointeracionismo e Linguística Textual (Marcuschi, Bakhtin, Bagno): Criticam a visão da língua como mero código abstrato ou fechado, concebendo-a como uma prática social e cognitiva historicamente situada, fruto da interação contínua entre interlocutores em situações reais de enunciação e uso do discurso.

FALA

A fala (parole) é conceituada nas fontes como o ato individual, concreto e momentâneo de utilização do sistema da língua por um falante específico. Na dicotomia clássica estabelecida por Ferdinand de Saussure no Curso de Linguística Geral, a fala é a manifestação em que o código abstrato se converte em uso real de comunicação.

1. As Características da Fala no Estruturalismo de Saussure

Enquanto a língua é social, abstrata, homogênea e essencial, a fala apresenta propriedades opostas e complementares:

●     Individual e Ativa: É definida por Saussure como um "ato individual de vontade e de inteligência". O falante escolhe ativamente as palavras e combina os elementos do código para exprimir seu pensamento pessoal.

●     Psicofísica: Diferente da língua (que é um sistema puramente psíquico gravado na mente), a fala envolve tanto a associação mental dos signos quanto os mecanismos fisiológicos e físicos da fonação e da articulação dos sons pelo aparelho fonador.

●     Heterogênea e Momentânea: Manifesta-se na comunicação concreta com todas as marcas particulares de cada indivíduo: ritmo, entonação, tom de voz, pausas, sotaque, estilo e eventuais hesitações ou cacoetes.

●     Acessória e Acidental: Na perspectiva formalista de Saussure, a fala é considerada a parte secundária ou executiva da linguagem, razão pela qual o linguista a excluiu do objeto principal da linguística estruturalista (elegendo a língua como objeto central).

2. A Interdependência entre Língua e Fala

Apesar de ter separado metodologicamente a língua da fala, Saussure enfatizou que ambas são rigorosamente interdependentes e se implicam mutuamente:

  1. A língua torna a fala possível: Sem o sistema de regras e convenções compartilhado pela comunidade, a fala individual seria pura emissão sonora sem inteligibilidade.
  2. A fala estabelece e transforma a língua: É ouvindo a fala dos outros que assimilamos a língua, e é no uso prático que surgem as inovações. Como sintetiza Saussure, "tudo o que é diacrônico na língua só o é por meio da fala" — ou seja, qualquer mudança sintática, fonética ou lexical nasce primeiro como uma variação na fala individual antes de ser absorvida pelo sistema coletivo.

3. O Conceito de Fala em Outras Escolas da Linguística

A noção saussuriana de fala foi reexaminada por correntes posteriores:

●     Gerativismo (Noam Chomsky): Substitui a oposição língua × fala pela dicotomia competência × desempenho (performance). O desempenho corresponde ao uso efetivo e prático da linguagem pelo indivíduo, estando sujeito a lapsos de memória, emoção, cansaço e hesitações.

●     Sociolinguística / Teoria da Norma (Eugenio Coseriu): Coseriu propõe a norma como uma camada intermediária entre o sistema abstrato e a fala individual, abrangendo os hábitos linguísticos e as variantes regionais e sociais comuns a determinados grupos de falantes.

●     Sociointeracionismo e Análise do Discurso (Mikhail Bakhtin): Bakhtin recusa a ideia de que a fala seja meramente individual e assistemática. Para a teoria discursiva, a manifestação verbal concreta (o enunciado) é eminentemente social e dialógica, pois toda fala responde a dizeres anteriores e antecipa ativamente a reação do interlocutor.

 

A seguir, três quadros comparativos, organizados para estruturar as revisões e destacar os pontos cruciais da disciplina.

Quadro 1: Linguagem, Língua e Fala (Conceituação Geral)

Este quadro sintetiza a divisão epistemológica fundamental da Linguística moderna:

Categoria

Definição Geral

Natureza e Domínio

Propriedades Principais

Linguagem

Faculdade ou capacidade humana universal de produzir, interpretar e transmitir sentidos por meio de sistemas de signos (verbais e não verbais).

Multiforme e heteróclita; abrange os domínios físico, fisiológico, psíquico, individual e social.

Ampla e inata; engloba a modalidade verbal (oral, escrita, Libras) e a não verbal (cores, imagens, gestos).

Língua (langue)

Produto social da faculdade da linguagem; código e sistema abstrato de signos e regras compartilhado por uma comunidade.

Social, essencial, homogênea, psíquica e abstrata.

Sistema de convenções e contrato coletivo; registrada passivamente no cérebro dos falantes; invariante e estável no corte sincrônico.

Fala (parole)

Execução e ato individual de utilização e apropriação do sistema da língua por um falante concreto em um momento dado.

Individual, acessória, heterogênea e psicofísica.

Ativa, voluntária e variável; abrange os atos de fonação/articulação e o estilo individual; é o germe das transformações diacrônicas da língua.

 

Quadro 2: Linguagem × Língua × Fala e as Pegadinhas de Concursos. 

As bancas examinadoras costumam explorar inversões conceituais e imprecisões do senso comum:

Conceito

Visão Correta da Teoria Linguística

Pegadinha Típica de Concurso

Como a Banca Tenta Enganar / Explicação

Linguagem

Capacidade humana ampla de comunicação e interação verbal e não verbal.

"A Libras é uma linguagem gestual sem gramática própria." ❌

Erro! A Libras é uma língua natural (com sistema, gramática e regras próprias), e não uma mera "linguagem" ou código simplificado.

Língua

Sistema social, homogêneo e abstrato de regras mantido por convenção coletiva.

"A língua é um ato individual e corpóreo que o falante pode alterar por vontade própria." ❌

Erro! O enunciado inverte língua e fala. A língua é um produto social e imutável por ato voluntário do indivíduo isolado.

Língua × Idioma

Língua é a estrutura psíquica e social; idioma é a denominação dada à língua oficial de um povo/nação.

"Idioma e língua são conceitos essencialmente opostos e incompatíveis." ❌

Erro! Na prática das provas, idioma costuma ser empregado como sinônimo de língua política/nacional.

Fala

Apropriação e uso individual do sistema da língua.

"A fala equivale estritamente à oralidade e é uma reprodução passiva do código." ❌

Erro! A fala saussuriana não se restringe à oralidade (abrange estilo e texto escrito) e é um ato criativo de uso, não mera reprodução.

Origem da Mudança

Todas as alterações na história da língua nascem no uso individual (na fala).

"As transformações históricas da língua são criadas no sistema da língua antes de irem para a fala." ❌

Erro! O caminho é o inverso: a inovação surge na fala de indivíduos e, com o uso e o consenso social, fixa-se na língua.

 

Quadro 3: As Dicotomias Saussurianas. 

Ferdinand de Saussure estruturou o Curso de Linguística Geral por meio de pares conceituais correlatos (dicotomias):

Dicotomia

Conceito A

Conceito B

Ponto-Chave & Pegadinha de Prova

1. Língua × Fala (Langue × Parole)

Língua: Sistema abstrato, social, homogêneo, psíquico e essencial.

Fala: Ato individual, concreto, heterogêneo, psicofísico e acessório.

Pegadinha: Inverter os polos afirmando que a língua é individual e a fala é coletiva. Lembrar que língua e fala são interdependentes: a língua é instrumento da fala e a fala alimenta a língua.

2. Sincronia × Diacronia

Sincronia: Estudo do estado da língua em um recorte temporal (eixo da simultaneidade e do sistema).

Diacronia: Estudo da evolução e das transformações dos fatos linguísticos ao longo do tempo (eixo da sucessividade).

Pegadinha: Achar que sincronia significa "o momento presente de hoje". Sincronia é a descrição de qualquer estado de língua isolado no tempo (p. ex., fazer um estudo sincrônico do português do século XVI).

3. Significante × Significado

Significante: Imagem acústica ou representação psíquica do som (plano da expressão/forma).

Significado: Conceito mental e imaterial associado (plano do conteúdo).

Pegadinha: 1. Confundir o significante com o som físico articulado ou com as letras escritas. 2. Incluir o referente (objeto real do mundo) dentro do signo: Saussure deixa o referente de fora.

 

 

 

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